Mais do que uma grande voz, a verdade de suas interpretações, a entrega no palco, mantêm Elis Regina como a maior cantora brasileira de todos os tempos. Ainda hoje, são muitos os artistas que realizam homenagens e projetos - de musicais, livros e shows a documentários - para recontar sua história e carreira, interrompida aos 36 anos por uma overdose de cocaína. Este mês é ainda mais especial para artistas que também são fãs da “Pimentinha”; se estivesse viva, ela estaria completando 75 anos.

A cantora Lucinnha Bastos, começou a cantar ainda criança, com sete anos, em baile infantil de carnaval. Com nove, dez anos, quando fazia o que era chamado “show mirim” no meio do show da Banda Sayonara, criada por seu pai, Luciano Bastos, ela já cantava e tinha Elis Regina como uma referência. “Meu pai ouvia muito as grandes cantoras do rádio, como Angela Maria, Dalva de Oliveira… E a Elis me influenciou positivamente desde cedo”, ela conta.

Encantada não só com a forma de cantar, Lucinnha aponta que, para profissionais da música, também é surpreendente a técnica de Elis. “A gente sabe que ela tinha uma técnica fora do sério, e um poder, uma postura de palco impressionante. Ela contagiava, emocionava a gente. Nunca esqueço uma cena célebre dela cantando atrás de uma porta, em um programa especial. Ela também se emocionava muito, chorava cantando, era essa verdade que ela passava”.

Mesmo respeitando todas as grandes cantoras do país, para Lucinnha, até hoje não temos, e nem cedo teremos, uma cantora como Elis. “A forma como ela encarava a arte era muito diferente. Tanto que é uma artista à frente do seu tempo. Ela já fazia no palco coisas que só se veio ver muito tempo depois”, diz. De todo repertório, a paraense destaca “Aos Nossos Filhos”, de Ivan Lins e Vítor Martins, à qual Elis deu uma interpretação única.

“Ela fala ‘perdoem a cara amarrada, perdoem a falta de abraço’. Acho essa música atemporal. Faz sentido principalmente nos dias de hoje, em que as pessoas parecem tão distantes da família, só querem saber de redes sociais. Você escuta a Elis cantando e pensa ‘ela está falando comigo, isso é para mim’, tal a força da interpretação”, diz Lucinnha.

TRIBUTOS

Anderson Moyses realiza todos os anos show com repertório em homenagem a Elis Carlos Borges/Divulgação

Em Belém, vários artistas já realizaram shows com repertório inteiramente pensado em homenagear Elis Regina. Anderson Moyses, por exemplo, realiza o “Elis Por Ele”, sempre por ocasião do aniversário de nascimento da Pimentinha. “As primeira vezes que ouvi Elis não foi na voz dela, mas da minha mãe. Eu não sabia quem era até então. Certa vez, em videocassete, tinha uma gravação do show ‘Transversal do Tempo’. Fui assistir e me chocou aquela mulher. Achei tão impactante que não gostei. Fui assistindo de novo e fui gostando. A música dela você tem que ir degustando, cada vez que escuto sinto algo novo”, diz ele.

Ele a aponta, claro, como referência de interpretação e afinação. “ [Sào exemplos] A verdade nela, a sinceridade e a determinação de ir e fazer. Tenho para mim que quando ela canta entra em outra dimensão, é tomada por algo que não sei dizer e quando acaba, então retorna. Isso é bem visível no semblante dela, uma entrega total que nunca vi em ninguém”, comenta Anderson.

Força e profundidade ímpares

Cacau Novais, outra paraense que também apresenta regularmente o show “As Canções Que Elis Cantou”, conta que ainda era criança quando a artista faleceu, por isso acabou tendo contato com sua obra pela trilha sonora das novelas - “que minha família sempre via lá em casa”, diz ela - ou pelo que tocava na rádio. “Pode-se dizer que Elis é uma dessas artistas que parecem eternas, pois mesmo com o tempo, as canções que ela interpretou parecem muito atuais e isso é uma das coisas que me chamam a atenção. A força, a profundidade e, ao mesmo tempo, a sensibilidade na sua interpretação são coisas que mexem comigo. Além dos arranjos que são muito elaborados”, elogia a paraense.

Responsabilidade: Cacau Novais demorou dez anos para escolher as músicas de Elis que entrariam num show especial. Lais Cardoso/Divulgação

Maturar um show em homenagem a alguém tão brilhante levou tempo, lembra Cacau. “Eu ia ouvindo as canções e os arranjos sempre me chamavam a atenção. Fui escolhendo as que me pareciam diferentes em relação ao que outros intérpretes faziam e, então, surgiu o título ‘As Canções Que Elis Cantou’, pois eu queria ressaltar a forma peculiar como a sua música era apresentada ao público”, explica. O processo levou cerca de dez anos, e nem assim aliviou a responsabilidade de levar para o palco uma canção que já teve a voz de Elis.

“É uma responsabilidade muito grande. Logo que anunciei nas minhas redes sociais que faria esse show, muitas pessoas comentaram que queriam assistir e confesso que essa expectativa do público me deixou um tanto nervosa. Elis é ímpar, né?”, comenta Cacau.

Entre todas as canções, ela diz que é difícil destacar uma, mas cita “Por Toda a Minha Vida”, do disco “Elis e Tom”, como um bom exemplo do trabalho de Elis. “É uma canção belíssima, com um arranjo maravilhoso, e que ouvi pela primeira vez num filme de Almodóvar. Esse alcance que ultrapassa fronteiras e gerações que a música de Elis tem é incrível”, elogia.

+PIMENTINHA

Elis Regina deixou uma obra com 25 discos de estúdio e ao vivo, produzidos ao longo de uma carreira que durou de 1961 a 1982. Entre as apresentações mais icônicas, com diversos vídeos pela internet, pode-se destacar: “Na Batucada da Vida” (1934), de Ary Barroso e Luiz Peixoto; “Aquarela do Brasil” (1939), também de Ary Barroso, que na versão de Elis, trazia um coral reproduzindo os cantos dos povos indígenas do Brasil; “Águas de Março” (1972), de Tom Jobim; “Meio-de-campo” (1973), de Gilberto Gil; “Como Nossos Pais” (1976), de Belchior; e “O Bêbado e a Equilibrista” (1979), de João Bosco e Aldir Blanc.

Em celebração aos seus 75 anos, ainda vem muito material novo para quem se apaixonar agora pela Pimentinha. Tem o álbum “Te Adorando Pelo Avesso”, tributo da jovem cantora baiana Illy, que já disponibilizou os singles de “Alô, Alô, Marciano” e “Fascinação” nas plataformas digitais. E um documentário conduzido por Nelson Motta, que pretende contar as histórias dos bastidores da gravação do disco “Tom & Elis” (1974). Para quem ainda vai se aventurar a conhecê-la, outra boa sugestão é a leitura de “Elis e Eu: 11 Anos, 6 Meses e 19 Dias com Minha Mãe”, lançado no final do ano passado pelo produtor musical João Marcello Bôscoli, filho da cantora.

Com carreira encerrada pela morte prematura, Elis Regina é até hoje apontada como uma intérprete sem comparativos. Foto: Divulgação

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