Os refletores se apagam em toda parte. As cortinas se

fecham. As salas de cinema mergulham no escuro. Por tempo indeterminado, os

palcos já não verão cenas de comédia nem de tragédia.

Artistas buscam alternativas para continuar interagindo com o público durante isolamento Governo anuncia restrição de eventos no Pará e outras medidas contra o coronavírusA crise sanitária trazida pelo novo coronavírus acerta em

cheio o cerne da cultura - essa prática que, em partes, não se cultiva sem

estar junto aos outros e para a qual reunir gente é uma das principais fontes

de renda.

Mas agora não dá para ficar junto, sob o risco de promover o

crescimento da contaminação. Diante disso, nos últimos dias diversos eventos

culturais foram cancelados ou adiados –o Lollapalooza, que foi para dezembro,

shows como os do grupo de hip-hop Wu Tang Clan, todas as estreias de cinema

desta semana. Sem contar algumas das principais exposições de artes visuais,

peças de teatro e lançamentos de livros que estavam previstos para os próximos

meses.

Shoppings da Grande Belém mudam horário de funcionamentoDiaristas sofrem com corte de dias de trabalho por crise do coronavírusNo Pará não é diferente. O cantor Julio Cezar Patrício, do Nosso Tom, fez um longo desabafo nas redes sociais, preocupado com as classes de profissionais autônomos. "A crise que já bate em nossa porta, com paralisações e a total impossibilidade de nós artistas exercermos nosso trabalho, colocará de forma clara o quanto somos desprotegidos como classe. Nós que vivemos exclusivamente de cachês, sofreremos com as medidas que virão, que logicamente tem uma causa justa e nobre, mas que também mostra a nossa total falta de garantias para dias como os que se aproximam. Somos cantores, músicos, seguranças, garçons, proprietários de estabelecimentos culturais, DJs e tantos outros que formam uma cadeia produtiva que movimenta de forma forte a economia do município, mas que geralmente é tratada como algo menos importante. Que tenhamos força para passar por essa tempestade, companheiros", desabafou.

O tamanho total do prejuízo ainda vai levar um tempo para

ser calculado, mas há números que dão uma ideia da penúria que se anuncia –isso

num setor que já vinha tendo o acesso a fontes de financiamento restrito.

O segmento é responsável por 4% do PIB nacional e, segundo o

IBGE, emprega cerca de 5 milhões de pessoas, além de ser formado por 300 mil

empresas de pequeno e médio porte. O governo de São Paulo estima que, no

estado, o impacto possa chegar a R$ 34,5 bilhões.

Álcool gel, líquido ou sabão? saiba o mais indicado para combater o coronavírusNo Rio de Janeiro, produtores culturais já têm se reunido

–mantendo distância uns dos outros nos encontros– para pedir uma intervenção do

poder público.

"Já vínhamos combalidos em termos de captação de

recursos desde 2018. A maioria das produções teatrais em cartaz no Rio não

tinha patrocínio", diz Eduardo Barata, produtor teatral. "Nos

reinventamos quando a Lei Rouanet começou a ser demonizada. Hoje há uma

dependência quase total da bilheteria."

A maioria das pessoas no mercado cultural não é empregada em

regime de CLT, mas como pessoa jurídica –ou seja, é um setor de freelancers,

que só recebem quando prestam os serviços. Quem não tem economias vai se ver

numa situação periclitante.

Em conversas privadas, já começam a surgir relatos de quem

não terá como pagar contas, precisou vender equipamentos ou está deixando o

apartamento, por não ter como pagar o aluguel. O cenário, é claro, é mais grave

entre os artistas independentes.

O Sesc-SP, espaço importante para esse grupo, fechou as suas

unidades pelo menos até 31 de março, e cerca de R$ 3 milhões deixarão de ser

pagos a artistas e outros profissionais da cultura. Se a suspensão for até

abril, o número deve mais do que dobrar. Só na programação musical, são 400

eventos que deixam de ocorrer.

Em São Paulo, a agenda de shows está praticamente toda

suspensa até o fim de março. Segundo Marco Antônio Tobal Junior, sócio do grupo

que comanda casas como o Espaço das Américas e o Villa Country, o que mais pesa

para a administração são as despesas fixas de manutenção. Só no primeiro

espaço, mais de 20 shows foram suspensos.

Na Casa Natura Musical, cerca de 60% do faturamento de março

está comprometido, por causa dos dez adiamentos de shows –sete deles tinham

ingressos esgotados– já anunciados. Suyanne Keidel, diretora-executiva da casa,

diz que vai deixar de gerar trabalho para 250 pessoas por show não realizado.

"Se contabilizarmos os eventos corporativos, só em

março são mais de 320 postos de trabalho que estamos deixando de gerar",

diz. "Fora o time que chega com os artistas e agências de eventos."

Os governos do Rio de Janeiro e do Distrito Federal já

proibiram o funcionamento de salas de cinema –e a tendência é que o mesmo

ocorra, gradualmente, no resto do país. Até agora são quase 600 salas fechadas,

mas o número pode chegar a 3.500, que é o total do parque exibidor nacional.

Algumas redes já tentam amenizar as suas perdas. A Cinemark

tem um plano de demissão voluntária, mas, de todo modo, poucos funcionários

aderiram a ele. A maioria optou por ficar em casa em treinamento online, sem

receber vale transporte e alimentação. Ambos os acordos, contudo, ainda

precisam ser negociados com sindicatos locais e homologados pela Justiça do

Trabalho.

A quinta da semana passada teve a pior bilheteria para um

dia de estreias desde 2017, com 86 mil espectadores. "O primeiro semestre

está perdido", diz o produtor Rodrigo Teixeira.

Com o cancelamento de gravações - como já ocorre em São

Paulo -, profissionais como costureiras e quem organiza as refeições das

equipes deixam de ter trabalho.

O Itaú Cultural pretende pagar todos os contratos ou

negociações já avançadas, nos quais tenha feito artistas e outros profissionais

bloquearem suas agendas. Depois que a crise passar, cada contratado terá 12

meses para prestar o serviço.

Mas o setor ainda espera intervenção de municípios, estados

e governo federal.

O Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais listou uma série

de medidas concretas que poderiam ser tomadas.

Já que os projetos aprovados em leis de incentivo não

poderão cumprir o aprovado - por exemplo, caso resolvam fazer apresentações

onlin-, seria preciso uma nova instrução normativa que permita lidar com

interrupções, prorrogações e adiamentos.

E também que se leve em que conta que, em qualquer um desses

casos, haverá custos adicionais, por exemplo.

A instituição também pede a liberação de verbas retidas ou a

antecipação de valores já comprometidos do Fundo Nacional de Cultura e do Fundo

Setorial do Audiovisual. Segundo levantamento do fórum, isso injetaria R$ 1,5

bilhão no mercado cultural. O fórum também sugere a isenção temporária de

taxas, impostos e aluguel de espaços públicos, além da abertura de linhas de

crédito.

Nesse quesito, o governo de São Paulo acaba de anunciar a

criação de uma linha de crédito para empresas de cultura e economia criativa,

turismo e comércio. A gestão Doria, do PSDB, estuda um pacote de medidas a ser

anunciado em breve, o que pode incluir a ampliação dos valores do ProAC Editais

e do ProAC ICMS.

Ainda há a expectativa sobre o que a atriz

Regina Duarte, secretária especial da Cultura, deve fazer. Ela pediu

levantamentos sobre o impacto da crise no setor, o tamanho dos recursos

contingenciados e sugestões sobre o que pode ser feito. Ela aguarda essas

informações para pedir uma audiência com integrantes do Ministério da Economia.

O músico, há mais de 20 anos no mercado, fez um longo desabado sobre a "crise" nas redes sociais. Foto: Arquivo Pessoal

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